22 dias de Dilma Roussef no Doi-Codi – 15

22 dias de Dilma Roussef no Doi-Codi – 15

Luís Cláudio Cunha

Deu no The New York Times (parte 15)

Pouco antes do enterro, ao abrir o caixão para as cerimônias judaicas de purificação, a família pode ver, além das marcas da autópsia e das costuras no tórax e nas pernas, manchas roxas no rosto e na barriga. Um dos primos de Chael resumiu: “Ele apanhou como um cavalo”.

A versão oficial, registrada em documento do II Exército e encontrada nos arquivos do DOPS, era mais branda: “Reagiram violentamente com disparos de revólver, espingarda e mesmo com bombas caseiras.

Da refrega, os três terroristas saíram feridos, sendo Chael o que estava em estado mais grave. Foram medicados no HCE, entretanto Chael sofreu um ataque cardíaco, vindo a falecer”. A explicação tinha uma cavalar contradição com o relato técnico do atestado de óbito, que descrevia a causa mortis: “contusão abdominal com ruptura do mesocólon transverso e mesentério, com hemorragia interna”.

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A história ganhou a capa da edição 66 da revista Veja, de 10 de dezembro de 1969, dedicada a um só tema: “Torturas”. Era um destemido trabalho de investigação de vários meses de um equipe de oito repórteres chefiada por Raimundo Rodrigues Pereira, detalhando três casos de morte e arrolando outras 150 denúncias.

A revista foi apreendida nas bancas. Uma semana antes, a morte de Chael tinha conquistado bancas imunes ao braço longo da censura brasileira em Nova York, Paris e Londres, publicada em três importantes jornais do mundo — The New York Times, Le Monde e The Times.

O dramático depoimento de Dora na Auditoria da Marinha não salvou a vida de Chael — e nem a dela. Incluída na lista de 70 presos políticos banidos e trocados pelo embaixador suíço, em 1971, ela se exilou no Chile e mudou-se depois para a Alemanha.

Em fevereiro de 1976, com as feridas da tortura ainda latejando na alma, internou-se numa clínica psiquiátrica em Spandau. Quatro meses depois, Dora atirou-se na linha do metrô de Berlim. Tinha 31 anos.

No caso de Chael, até o laudo da morte desmentia a tese simplória do ‘ataque cardíaco’, na versão do Exército. A expressão ‘contusão abdominal’ indica ‘lesão produzida nos tecidos pela pancada de corpo duro sem que haja rompimento de pele’. A origem disso, segundo os médicos, pode ser atropelamento, queda violenta, paulada, pontapé.

A CNV foi além das especulações e, 45 anos depois, submeteu o laudo de necropsia do HCE à análise de peritos. Em quatro quadros esclarecedores, a CNV exibe um quadro terrível.

Na cabeça e no pescoço, foram localizadas escoriações e feridas no olho esquerdo, nas pálpebras, no queixo, na maçã do rosto. Havia hemorragia e manchas no peito, no abdome e nas nádegas. O ombro, o braço, a coxa e o punho do lado esquerdo exibiam cinco hematomas e três manchas.

Os sinais internos, segundo o laudo do hospital do Exército, eram ainda mais assustadores: quatro costelas fraturadas no lado direito, seis costelas no esquerdo, hemorragia no couro cabeludo e no reto.

Conclusão da perícia da CNV sobre o laudo do Exército:

“Ao analisar o Laudo Cadavérico de Chael Charles, referente ao exame de ne­cropsia realizado no dia 24 de novembro de 1969, verificou-se a constatação de hema­tomas (indevidamente denominados escoriações) produzidos nas regiões anterior e posterior da cabeça, do tronco e dos membros, alguns inclusive denotando um formato “ovalar”, fratura com infiltração hemorrágica de várias costelas de ambos os lados e afun­damento do rebordo costal esquerdo.

A natureza, forma e distribuição por todo o corpo das lesões descritas no referido Laudo, determinam que Chael Charles foi agredido de forma generalizada e contínua, inclusive tendo recebido socorro médico, face à sutura descrita na região mentoniana.

A variedade de colorações das lesões descritas, aliada à presença de infiltrados hemorrágicos relatados em várias costelas corroboram a ocorrência de agressões reite­radas por todo o corpo.

Verificou-se ainda, que em momento próximo e anterior à sua morte, Chael Charles foi submetido a coleta de impressões papiloscópicas, tendo sido verificadas subs­tância enegrecida aderida às suas poupas digitais. Vale ressaltar que tal procedimento é típico das diligências policiais.

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A subversão da ética

Tudo isso – fatos, depoimentos, dados, laudos, perícias – integra o consistente relatório preliminar enviado aos comandantes das FFAA, historiando o caso notório de Chael, que a edição apreendida de Veja em 1969 definiu como “a primeira prova real de morte violenta durante um interrogatório policial”.

E o que responderam os generais sobre a mais notória morte por tortura em um quartel do Exército no coração da Vila Militar?
Nada, não responderam nada. Não comentaram, não replicaram, não confirmaram. Como sempre, ‘nada consta’ sobre isso nos registros do Exército.

A frustrante resposta das FFAA à CNV e ao País deixa evidente, mais uma vez, a opção preferencial dos militares pela trincheira oposta a uma nação comprometida com o resgate da memória e da verdade.

É uma postura incompreensível para os atuais chefes das três forças, considerando a limpidez de suas biografias. O general Enzo Martins Peri (72 anos), o almirante Júlio Soares de Moura Neto (70) e o brigadeiro Juniti Saito (70), como as tropas que hoje comandam, nada têm a ver com as truculências cometidas no regime que derrubou Jango e a democracia.

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Ao contrário dos camaradas da ditadura que ainda hoje protegem, 29 anos após o fim do ciclo militar, o trio de comandantes tem ficha limpa para avaliar com isenção — ‘sem desvios de finalidade’ — os crimes cometidos no passado. Todos os três chegaram ao generalato no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, quando a ditadura já era defunta há uma década.

O general Peri chegou ao topo da carreira sem envolvimento com repressão e violações aos direitos humanos. De um ramo técnico da força, a Engenharia, era segundo-tenente de 23 anos quando irrompeu o golpe de 1964. O almirante Moura Neto completou 21 anos apenas 12 dias antes da derrubada de Jango em 1º de abril. Só cinco meses após o golpe é que ele vestiu, pela primeira vez, a farda de guarda-marinha. O brigadeiro Saito virou aspirante da FAB apenas no final de 1965, 19 meses após o movimento militar.

Na principal força armada do país, o firmamento das 276 estrelas que comandam a tropa — 14 generais de exército (quatro estrelas), 32 de divisão (três estrelas) e 62 de brigada (duas estrelas) — produz uma luz intensa que pode espantar a treva do passado que envergonha a farda e o país.

Todos os generais foram promovidos sob o regime democrático, o que torna ainda mais estranha a intransigente posição corporativa que preserva a impunidade de quem cometeu graves abusos na ditadura. Se os comandantes das FFAA não se sentem à vontade para responder às questões pertinentes levantadas pela Comissão Nacional da Verdade, deveriam pelo menos cumprir os regulamentos internos que eles mesmos juraram cumprir.

O principal deles é o Estatuto dos Militares, regulamentado justamente pelo Governo Figueiredo, o último do ciclo de generais. A lei nº 6.880, aprovada pelo Congresso em 9 de dezembro de 1980, prevê no estatuto a Seção II do Capítulo I (‘Das Obrigação Militares’), reservada a um item pouco conhecido da carreira: “Da Ética Militar”.
O inciso I do Art. 28 do Estatuto dos Militares, aprovado pelo último presidente da ditadura, estabelece o primeiro preceito da ética militar: “Amar a verdade e a responsabilidade como fundamento de dignidade pessoal”, diz o inciso I.

O inciso III do Estatuto dos Militares determina: “Respeitar a dignidade da pessoa humana”.

O digno relatório da CNV prova, como prega o Estatuto dos Militares, uma busca permanente pela verdade e uma preocupação obsessiva com a dignidade da pessoa humana.

A frustrante sindicância das FFAA, infelizmente, mostra o contrário.

O repórter LUIZ CLÁUDIO CUNHA, reconhecido como Notório Saber em Jornalismo pela Universidade de Brasília, ganhou projeção ao denunciar, em 1978, o sequestro de uruguaios pela Operação Condor em solo brasileiro. Desde então, ocupou postos de peso na carreira, como a direção em Brasília das sucursais das revistas Veja e IstoÉ e do jornal O Estado de S.Paulo. Quando consultor da Comissão Nacional da Verdade, foi afastado em julho passado por criticar a postura de alguns de seus integrantes e apontar a falta de empenho do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército e da Marinha no esclarecimento de crimes da ditadura.

Fonte: jornal já

1 comentário em “22 dias de Dilma Roussef no Doi-Codi – 15

  1. Iêda Sant'Ana

    Absurdo hoje em dia pessoas defenderem a ditadura,fui enquadrada no decreto 477,até hoje não sei por que.Torturadores fazem parte de seres cruéis e desumanos com alguma patologia doentia.Não há explicação para tamanha crueldade.

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