A Leitura como Ação de Desenvolvimento

A Leitura como Ação de Desenvolvimento

Lilian Ferreira

COMO SE LÊ HOJE EM DIA?livros1

O livro mais vendido nas últimas semanas no Brasil e no mundo foi uma publicação de colorir. Para adultos. É antiestresse, dizem. O espaço das letras, das palavras, é mínimo. A interatividade é grande, assim como o marketing. E isso traz questionamentos: como e o que lemos atualmente? E o que diz sobre nós o fato de o livro mais vendido hoje ser para colorir?

Livro interativo é tendência no mercado editorial. Em abril, na abertura da Feira Internacional do Livro, em Londres, houve uma conferência sobre como publicar livros para mentes digitais. Roteiristas de games ensinaram a criar narrativas interativas, tanto para o papel como para meios digitais. A expectativa é que, agora, o leitor tenha a mesma experiência, ou algo muito próximo disso, em qualquer plataforma na qual consumir uma história.

Foi esse objetivo que fez o velho livro impresso ganhar interatividade nos últimos anos. A proposta é sucesso de vendas. As pessoas querem sentir e produzir algo sobre aquilo que estão lendo – flexibilize seu conceito de leitura nesse caso. Há quem tenha colocado isso além. A Disney, por exemplo, lançou um livro que gera energia quando você o folheia. Hoje, seja analógico ou digital, qualquer objeto precisa oferecer algum nível de interação para merecer a atenção humana.

As pessoas têm procurado uma forma de interagir mais com os livros e torná-los uma coisa única, personalizada“, afirma Nana Vaz de Castro, gerente de aquisições da editora Sextante, que publica o best-seller colorido “Jardim Secreto”. Ela diz ver a obra “Destrua Este Diário” como origem de tudo – não por acaso, os rabiscados e cheios de penduricalhos diários de papel eram um dos itens mais personalizáveis pelas adolescentes, hoje adultas, dos anos 90.

Vivemos tempos exponenciais, com as mídias sociais, internet e smartphones. Estamos hiperconectados. Então, entramos em uma era na qual os jovens começam a experimentar a desconexão. E os livros de pintar significam a pessoa parar e fazer trabalhos. Para esses jovens, a leitura virou um momento para desligar por meia hora. E não é apenas com os livros. Em um mundo com tanta complexidade, as pessoas estão cada dia mais querendo mais simplicidade.” (Gil Giardelli, educador da CBL (Câmara Brasileira do Livro).

A ilustradora Johanna Basford, autora de “Jardim Secreto” e “Floresta Encantada”, endossa a tese de que a interatividade palpável e o desejo de ter um descanso do mundo online são trunfos para o sucesso comercial do seu segmento. “As pessoas estão realmente animadas para fazer algo análogo e criativo, num momento em que todos nós estamos tão oprimidos por telas e pela internet”, disse ela ao “The New York Times”.

De acordo com um estudo do Centro de Pesquisa Pew, dos EUA, o papel voltou a crescer como plataforma de leitura dos adultos daquele país a partir de 2014. O formato foi o adotado por 69% dos que leram pelo menos um livro no último ano. As versões digitais apresentam crescimento, mas atingem apenas 28% dos leitores.

O quadro é similar por aqui, segundo Zoara Failla, gerente executiva de projetos do Instituto Pró-Livro e coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. O último levantamento foi feito em 2011 e mostrou a força dos livros de papel – 70% dos entrevistados nunca tinham ouvido falar de e-book e 82% nunca tinham lido um. “A tendência é que as pessoas passem a conhecer mais livros digitais, mas o domínio do impresso ainda é grande. Muita gente tem iPad ou [e-reader] Kindle, mas prefere ler no papel”, afirma. Uma nova pesquisa deve ser feita neste ano.

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Outra tendência no mundo da leitura é conhecida: estamos lendo menos. Podem ser países desenvolvidos ou subdesenvolvidos, sejam jovens ou adultos. Mas estamos lendo o que e como? A maioria das perguntas é focada em livros, digitais ou impressos, mas ignora que a leitura está muito mais fragmentada e difusa com o uso maciço da internet e redes sociais.

“Podemos ler menos livros tradicionais, mas hoje a leitura é mais transmidiática. Há livros que você só consegue ler na internet, que têm som, interação. É um dos caminhos para o novo leitor”, afirma o educador da CBL.

“A gente nunca leu tanto. Antes a gente tinha uma comunicação verbal. Agora são mensagens escritas. Mas o que você lê e escreve? Hoje a gente sabe um pouco de tudo. É uma forma superficial, pasteurizada, massificada. O conhecimento, dos livros, é mais aprofundado e possibilita criar uma visão crítica. De conseguir dizer por que acredito naquilo ou não. Uma coisa não deve substituir a outra.”Zoara Failla, gerente executiva de projetos do Instituto Pró-Livro e coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Segundo o estudo Retratos da Leitura no Brasil, caiu o número de pessoas que gosta de ler (jornais, revistas, livros e textos na internet) em seu tempo livre – eram 36% em 2007 e passaram a ser 28% em 2011. Destes, 58% leem frequentemente. São três brasileiros em cada dez que gostam de ler, e apenas 1,7 deles fez do prazer um hábito.

A leitura específica de livros puxa esse número para baixo. A quantidade de pessoas que leram pelo menos uma obra inteira ou parte dela nos últimos três meses caiu de 55% para 50% de 2007 para 2011. A média de livros lidos pelo brasileiro também está menor. Em 2011, foram quatro, sendo que só dois eram lidos inteiros. É uma das menores taxas do mundo.

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Jessica E. Moyer, doutora em filosofia pela Universidade de Minnesota, nos EUA, concluiu em sua dissertação que o engajamento e a compreensão dos jovens é o mesmo em qualquer formato, seja no papel, digital ou áudio-livro. Entretanto, ela cita que a maioria dos estudos que falam de menos leitura entre pessoas de até 40 anos é baseada em livros de papel e, em geral, só contabilizam textos narrativos e não informativos.

Apesar desse “preconceito”, são os nativos digitais que têm lido mais livros. O Centro de Pesquisa Pew indicou que os americanos jovens estão lendo significativamente mais títulos que os adultos, incluindo o formato impresso. E isso se deve à combinação escola, lições de casa e um número expressivo de leitura por prazer – 67% dos jovens com menos de 30 anos leem pelo menos uma obra (em qualquer formato) por semana, enquanto esse número é de 58% para os mais velhos. E os adolescentes entre 16 e 17 anos são os que mais leem diariamente.

No Brasil se lê bastante e a cada dia o consumo de livros cresce. Nas faixas etárias que vão do infantil ao juvenil, vimos um expressivo crescimento do número de leitores nos últimos dez anos. Há uma geração ávida por romances, aventuras, sagas, histórias de não ficção. Mas este é um leitor participante, ativo nas redes e que também é, em muitas ocasiões, um produtor de conteúdo.

“No Brasil se lê bastante e a cada dia o consumo de livros cresce. Nas faixas etárias que vão do infantil ao juvenil, vimos um expressivo crescimento do número de leitores nos últimos dez anos. Há uma geração ávida por romances, aventuras, sagas, histórias de não ficção. Mas este é um leitor participante, ativo nas redes e que também é, em muitas ocasiões, um produtor de conteúdo.” (Daniel Louzada, gerente comercial da Saraiva)

O mercado editorial brasileiro cresceu de 2012 para 2013. Entretanto, o aumento foi de livros didáticos vendidos para o governo, usados em escolas públicas. Se é um indicador que a escola, em tese, cumpre seu papel de estimular a leitura, por outro lado escancara que 56% dos brasileiros nunca compraram um livro. Mais: 85% não compraram nem edições impressas, digitais, cópias e apostilas nos três meses anteriores à pesquisa. Crianças e adolescentes têm acesso por meio de doações. Fora desse cenário, a venda ainda não decolou.

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Mas a internet não pode ajudar nesse acesso ou em fomentar o hábito? A maioria das pesquisas nacionais e internacionais acredita que a rede trouxe benefícios no aprendizado e diversidade de informações. A internet fornece meios para as pessoas estarem mais bem informadas, aprenderem coisas novas e, claro, compartilharem essas experiências.

A questão é que, para estar efetivamente mais bem informado que no passado, é preciso ler e entender o que se lê. A leitura fragmentada tornou-se também mais superficial. Nem nas redes sociais algumas pessoas leem posts até o fim antes de correrem para a caixa de comentários – como no caso da foto do metrô com um casal de lésbicas em primeiro plano e um homem pisando na faixa de segurança ao fundo.

POR QUE É TÃO DIFÍCIL LER?

O número de analfabetos caiu de 15%, em 2007, para 9%, em 2011, mas o número de pessoas com dificuldades aumentou.

Aliada à “rapidez” das redes está o fato de que apenas 25% da população brasileira tem capacidade de ler e entender textos longos, segundo o Instituto Paulo Montenegro do Ibope, que faz análise do analfabetismo funcional no país.

Giardelli aponta ainda como motivos pelo baixo nível de leitura do brasileiro a falta de estrutura e estímulo ao uso de bibliotecas, o preconceito das escolas com livros mais populares para adolescentes e o preço dos títulos. Dados do Ministério da Cultura indicam que 82% dos gastos do Vale Cultura em 2014 foram destinados a livros, revistas e jornais. Esses itens ficaram à frente do cinema (com 13%) e de instrumentos musicais (2%). Já pesquisas do Pró-livro dizem que as pessoas não vão a bibliotecas – a maioria das publicações lidas são comprados por elas em livrarias.

 

Apesar de não haver uma conclusão se lemos mais ou menos atualmente, é fato que lemos mais fragmentos e conteúdos mais leves. O ranking dos mais lidos, cujo pódio é hoje ocupado pelos livros de colorir para adultos, já foi liderado por bruxos (Harry Potter), vampiros (“Crepúsculo”), pornografia para mamães (“50 Tons de Cinza”) e distopias (“Jogos Vorazes”). Os clássicos e obras sobre temas “cabeça” ficam para baixo nessa lista. E qual o impacto disso?

Uma pesquisa publicada pela revista “Science” concluiu que ler bons livros de ficção aumenta um conjunto de competências e processos de pensamento fundamentais às relações sociais complexas, o que não acontece quando você lê best-sellers. Pois é, os pesquisadores Emanuele Castano e David Comer Kidd dizem que ler “Crepúsculo” ou Machado de Assis não é a mesma coisa.

Leituras mais densas exigem do leitor um engajamento intelectual e um pensamento criativo, que desenvolve maior capacidade de análise, crítica e até inteligência emocional e social

Mas seria então esse o argumento para evitarmos leituras mais leves? Ainda não. Anthony Gierzynski, professor da Universidade de Vermont, nos EUA, fez ma pesquisa com quase 2.000 jovens e concluiu que o efeito Harry Potter nos hábitos de leitura foi enorme. “As evidências de nossa pesquisa, sobre dados de leitura, venda de livros e o falatório em torno da série nos convence que muitos millennials (geração nascida entre o fim dos anos 70 e o fim dos 90) se tornaram leitores após os livros de Harry”, afirma o autor em seu trabalho – ele destaca que os fãs do bruxo tomaram gosto pelo hábito e passaram a ler outros livros.

Já pesquisadores europeus publicaram no Jornal de Psicologia Social Aplicada outro estudo sobre o efeito Harry Potter. Eles concluíram que os fãs se tornaram mais tolerantes após a leitura a saga – a pesquisa foi feita com estudantes de ensino médio e superior e abordou temas como imigração, homossexualidade e refugiados.

Esses livros de ilustrar servem como entretenimento, mas o fato de ele estar montado como um livro não o torna um livro no sentido que entendemos o livro como algo que traz ideias, pensamentos, constrói histórias, que desperta emoções por acessar novos conhecimentos ou por entrar em uma história. Parece que existe uma tendência de tornar tudo muito fluído, de fácil acesso, como se o que exigisse uma reflexão dificultasse o interesse do novo leitor. De alguma forma se infantiliza o leitor, diz-se que ele não tem a capacidade de compreensão que tinham gerações anteriores.” (Zoara Failla, gerente executiva de projetos do Instituto Pró-Livro e coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil).

Já Giardelli acredita que os best-sellers podem ser uma porta de entrada para os jovens no mundo da leitura. “‘Grande Sertão: Veredas’ é fantástico, mas não é para garotos de dez, 12 anos. Isso cria repulsa à literatura. É um livro para uma mente mais madura. E a gente acha que as pessoas estão lendo muita bobeira, mas não se pode esperar que a pessoa seja tão sofisticada em um primeiro contato com a leitura”, afirma.

De um jeito ou de outro, o que os especialistas apontam é que esses livros, além de trazerem alguns benefícios, atraem as pessoas para o mundo da leitura. Comprar um livro de colorir pode ser um primeiro passo para ter contato com outras obras. Segundo o gerente comercial da Saraiva, Daniel Louzada, com a venda aquecida nos últimos meses, mais pessoas foram às lojas e procuraram, além de lápis de cor e canetas, outros títulos.

O livro “Jardim Secreto” tem um subtítulo: “Livro de Colorir e Caça ao Tesouro Antiestresse”, o que diz muito sobre o boom de venda. Queremos nos desconectar, a leitura está mais fragmentada e poucas pessoas conseguem ler e compreender grandes textos. E TODO MUNDO ESTÁ estressado.

O marketing atinge direto a necessidade de 11 a cada dez pessoas que vivem em grandes cidades. Para que ler “Dez Passos para Desestressar” se você pode comprar um livro por R$30 que já te ajuda nessa tarefa?

“Qualquer trabalho manual é bom para desestressar. Costumamos dar em consultório atividades de pintar e desenhar como parte da arterapia, mas muitos adultos têm dificuldade de aceitar um trabalho comum na infância. Retomar essa atividade que traz um campo de expressividade é muito benéfico”, explica Maíra Bonafé, especialista em arteterapia e professora da Universidade de Londrina, no Paraná.

“No desenvolvimento da criança, quando entra a escrita e ela aprende a escrever, ela para de desenhar”, afirma Bonafé. A dificuldade de desenhar à mão livre é um problema também apontado pela autora Johanna Basford. Para ela, seu livro virou um sucesso porque as pessoas se assustam com a folha em branco, com ter que desenhar, mas não em ter que colorir.

Com o livro interativo você pode acompanhar seu progresso, das primeiras cores usadas às últimas. Ao começar a colorir você pode pensar um caminho a ser trilhado. E compartilhar com os demais. Esse foi outro grande pulo do gato. A diversão e desconcentração não é só pegar os lápis de cor, mas também mostrar para os outros sua obra única e se inspirar também no que eles fizeram.

A mesma Johanna Basford lançou “Floresta Encantada”, que também está no topo das vendas. Livros de ilustrar de mandalas, religiosos e até de orgias sugiram nas livrarias. Mas para combater o estresse, um livro qualquer, de leitura mesmo, não serve?

“Serve, mas é uma dedicação diferente. Precisa de um tempo maior, dominar as palavras. Mas a leitura é imagética, estimula a imaginação e criatividade”, afirma Bonafé.

Mark Zuckerberg disse que 2015 seria o ano do livro. Propôs que todo mundo lesse e compartilhasse. Seus livros sugeridos se esgotaram em poucos dias em sites e livrarias. Parece mesmo que a onda é ir para o papel, para desestressar lendo ou pintando. Pode ser esse um problema para a rede social de Mark?

Fonte: TAB UOL

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