Brasileiro descendente de armênios registra em fotos ‘vazio do massacre’

Brasileiro descendente de armênios registra em fotos ‘vazio do massacre’

Luís Guilherme Barrucho

Com o irmão, o bisavô do fotógrafo brasileiro Stepan Norair fugiu da Armênia Ocidental, rumo a Aleppo, na Síria, onde permaneceram temporariamente antes de se instalar de vez no Brasil, no começo do século 20. Para registrar a história da família, Norair retratou várias paisagens armênias. As fotos estarão no livro "O Poder do Vazio - Conversando com as Pedras na Armênia Histórica"

Com o irmão, o bisavô do fotógrafo brasileiro Stepan Norair fugiu da Armênia Ocidental, rumo a Aleppo, na Síria, onde permaneceram temporariamente antes de se instalar de vez no Brasil, no começo do século 20. Para registrar a história da família, Norair retratou várias paisagens armênias. As fotos estarão no livro “O Poder do Vazio – Conversando com as Pedras na Armênia Histórica” – Stepan Norair

“Fiz esta escrita em 1922. Na casa, fiquei 25 dias. Agora, me vou. Fiquem bem amigos. Aquele que ler Bedros que se lembre de mim. YAN”.

A mensagem, gravada em pedra no canto superior esquerdo de uma janela, foi descoberta por acaso pelo arquiteto e fotógrafo brasileiro Stepan Norair Chahinian em um quarto da casa que pertencia à família de sua avó paterna, a armênia Anahid Der Bedrossian, em Urfa, na atual Turquia. No local, hoje funciona um hotel boutique.

Há cerca de 100 anos, o pai de Anahid — bisavô de Stepan — e o irmão fugiram dali apenas com as roupas do corpo. Eles foram os únicos de uma família de 35 membros a se salvar do massacre dos armênios pelos turcos.

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Entre 1915 e 1923, 1,5 milhão de armênios foram mortos pelos otomanos. Outros milhares foram vítimas de deportação forçada. Classificada como ‘genocídio’ por países como Canadá, França e Alemanha, a denominação não é reconhecida oficialmente pelo Brasil.

Até hoje, a Turquia nega que tenha havido extermínio sistemático dos armênios e alega que agiu para defender a “soberania nacional”.

Stepan acredita que a mensagem, que está dividida em seis linhas e cuja assinatura se encontra codificada, foi escrita pelo irmão de seu bisavô paterno, Yan. Os dois fugiram da Armênia Ocidental, região que atualmente faz parte da Turquia, rumo a Alepo, na Síria, onde permaneceram temporariamente antes de se instalar de vez no Brasil.

“Coloquei as mãos sobre aquela mensagem e fechei os olhos; tentei conter as lágrimas acumuladas, mas deixei que rolassem. Eu precisava. Conversei internamente com ela, e confortei a alma daqueles que um dia viveram e morreram por lá”, diz ele à BBC Brasil.

“Se a ideia era exterminar os armênios, ali estava um grande reencontro, entre um homem e uma pedra, prontos para contar a verdadeira história”, acrescenta.

Após quatro viagens à Turquia, totalizando nove meses, e mais de 21 mil quilômetros percorridos pela Ásia Menor, Stepan decidiu contar esse reencontro por meio de fotos, reunidas em um livro ainda a ser publicado em português.

Intitulada “O poder do vazio – conversando com as pedras na Armênia histórica”, a obra acaba de ser lançada em armênio, turco e inglês. Também haverá uma versão em espanhol.

Stepan também convidou intelectuais, jornalistas e escritores de origem armênia para escrever os textos que acompanham as imagens.

Além do livro, uma exposição fotográfica foi inaugurada em Istambul, na Turquia, e deverá passar por França, Estados Unidos, Argentina e Brasil.

“Meu bisavô foi uma vítima do genocídio e eu sou uma consequência dele. Mas minha jornada rumo à Armênia de meus antepassados teve como gênese o diálogo com os turcos. O genocídio aconteceu e precisa ser reconhecido. Quero conversar sobre este episódio histórico e lutar para que a justiça seja feita.” Para Stepan, “o governo turco foi o mentor do crime”.

“Desde pequeno, ouvia meus avós contarem histórias sobre o extermínio em massa dos armênios. Essa memória oral me fez chegar à casa que pertenceu à família de minha avó paterna em Urfa. Quis ir até lá e encarar meu passado. É minha singela homenagem aos meus antepassados e às milhares de pessoas que morreram”, explica.

Fotografia

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Stepan conta ainda que herdou a paixão pela fotografia de seu avô paterno, Avedis, também armênio. Nascido em Marach, na antiga Armênia, Avedis fugiu para a Síria quando tinha nove anos, junto do irmão mais novo. Ali ele aprendeu um novo ofício, diz Stepan.

“Meu avô se tornou um fotógrafo conhecido e chegou a ser correspondente durante a 1ª Guerra Mundial”, lembra.

“Usei a câmera dele, uma Rolleiflex, para fazer fotos do que pude verificar durante a minha jornada”.

As fotos feitas com a câmera do avô, em preto e branco, foram misturadas àquelas registradas com a câmera digital, acrescenta Stepan.

“Não foi fácil entender e processar tantas informações e experiências vividas nas terras de onde vêm as minhas raízes. Principalmente editar as fotos para o livro”.

“Em busca de provas e pessoas, atrás de poderosas pedras e paredes falantes, em silenciosos lugares vazios onde estão guardados segredos, pude encontrar quem ainda tenta se esconder. Procurei descobrir onde foram parar as centenas de milhares de famílias que, como a minha, outrora por aqui habitavam e rezavam, nas mais de 2 mil igrejas que existiam na Turquia em 1915”.

Fonte: BBC Brasil

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