No caminho com Mariana

No caminho com Mariana

Renato Bazan

Sob a clareza áspera da iluminação noturna de Itu, há uma fila de desesperados que nunca chega ao fim. Um por um, todos eles, todos os dias, todas as horas, os milhares de moradores do bairro Cidade Nova se alinham para recolher a água de uma das três bicas públicas, que buscam no lençol freático aquilo que a companhia de águas não entrega há mais de um mês. Quem pode, compra. Quem não, paga o preço.Entre corpos arqueados e galões vazios, uma mulher de trinta e poucos anos carrega um número particularmente grande de garrafas – “São para o resto da minha família”, explica. Mariana não é diferente dos outros ali, enfileirados entre a necessidade básica e a falta de opção. Veio de São Paulo, enxotada pelo desemprego.

Depois que o restaurante no qual trabalhava começou a sofrer os cortes de água,
programados para assolar a região da Vila Madalena, não demorou muito para que o
amargor da água suja das torneiras tingisse também o humor de seu patrão. “Não temos
como bancar funcionários parados”, ouviu depois de algumas semanas.
Logo o aluguel bateu à porta, o medo subiu à cabeça e Mariana embarcou em um ônibus
na Barra Funda. O drama em São Paulo não lhe sai da cabeça, é visível. Na quase meia hora
de espera que já passa entre um e outro galão,pergunto como foram os últimos dias antes
do derradeiro adeus. “Bem frustrantes”, responde, secamente. “Imagine querer trabalhar,
tendo conta pra pagar, e não poder porque não dá nem para servir um café. É uma agonia”
Os casos e problemas da crise hídrica, que Mariana cataloga com a intimidade de
uma vítima cativa, fazem muito para reforçar o seu cordel:na primeira vez, a seca rouba-
lhe a limpeza das máquinas; na segunda, faz trocarem copos de vidro por descartáveis e
força o desligamento de certos equipamentos; até que um dia começam as conversas sobre
alugueis de caminhões-pipa e há galões de água mineral espalhados por todo o salão.
São soluções-problema, essas: os galões de água são pesados e duram pouco, os
copos descartáveis projetam na clientela a condição severina dos cozinheiros.
Eventualmente, chega o caminhão-pipa como um rinoceronte, enorme, barulhento,
desengonçado. Dos 10 mil litros de água que carrega, as caixas d’água só podem receber
dois – ao mesmo custo, de R$ 420, que não se paga nas poucas horas em que a
água corre para as torneiras.
Na companhia de um silêncio desconfortável, chegamos à bica. “Eu fico imaginando o
que vai acontecer quando isso aqui também acabar”, diz, e por um momento imagino as
consequências previsíveis da calamidade – inflação no preço dos alimentos, comércio
fechado, intoxicação por metais pesados, serviços de saúde superlotados. O que acontecerá
depois disso, porém, recai sobre os ombros de quem estiver no comando da crise – e me
vem um calafrio. A julgar pela forma como lidamos com o problema até agora, nem eu
nem Mariana ousamos dizer sobre o futuro.
Fonte: Olho Crítico

 

 

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