Vai-Vai, a Campeã do Carnaval 2015 de Sampa com Elis Regina

Vai-Vai, a Campeã do Carnaval 2015 de Sampa com Elis Regina

Desfile tecnicamente perfeito

Nelson Nunes

 

15.fev.2015 - Porta-bandeira carrega uma bandeira com foto de Elis Regina durante desfile da Vai-Vai/Alexandre Schneider/UOL

15.fev.2015 – Porta-bandeira carrega uma bandeira com foto de Elis Regina durante desfile da Vai-Vai/Alexandre Schneider/UOL

A Vai-Vai não é campeã do Carnaval 2015 por acaso. O título conferido nesta terça-feira (17) à agremiação do Bixiga, no último quesito, soa, antes de tudo, como reconhecimento a uma verdadeira escola de samba – na mais pura acepção do que, de fato, venha a ser uma instituição digna deste crédito. Berço do samba paulistano, legítimo representante de uma história que começou no século passado, com os cordões carnavalescos, a Vai-Vai chega ao seu 15º titulo em 85 anos de história sem que ninguém possa contestar o mérito dessa conquista.

Impossível acreditar em teorias da conspiração diante de um desfile que, certamente, já entrou para os anais do sambódromo do Anhembi como um dos seus momentos mais emocionantes. O enredo biográfico em homenagem à cantora Elis Regina produziu um desfile épico – se não somente pela beleza que se viu na avenida, também, e principalmente, pelo clima de catarse coletiva que tomou conta do Anhembi, com mais de 30 mil pessoas magnetizadas no culto à memória de Elis e as canções que fizeram sucesso na sua voz. Simples assim. Ou melhor, Simplesmente Elis! Simplesmente Vai-Vai!

A emoção tomou conta do desfile antes mesmo da entrada da escola na avenida. A cantora Maria Rita, filha de Elis, foi às lágrimas ao cantar o samba no esquenta, ainda na concentração. E teve dificuldades para chegar até a linha de chegada da passarela conduzindo a escola no papel de mestre de cerimônias do desfile, como peça integrante da comissão de frente. João Marcelo Bôscoli e Pedro  Mariano, os outros filhos de Elis, também estavam lá, ajudando a compor um cenário marcado pela saudade e pela admiração à figura de Elis. Curiosamente, o último campeonato conquistado pela Vai-Vai, em 2011, também foi com um enredo biográfico: “A Música Venceu”, em homenagem ao maestro João Carlos Martins.

15.fev.2015 - Carro alegórico da Vai-Vai, que relembrou a trajetória da artista Elis Regina em seu enredo

15.fev.2015 – Carro alegórico da Vai-Vai, que relembrou a trajetória da artista Elis Regina em seu enredo/Alexandre Schneider/UOL

As notas dos jurados comprovam que o desfile foi, além de tudo, tecnicamente perfeito – o que ajuda a apagar de vez a péssima imagem que ficou da performance do ano passado, quando a Vai-Vai esteve à beira de ser ameaçada pelo rebaixamento. Os deslizes desse desfile desastroso até que fizeram bem. Aprendendo com os erros, a direção da escola decidiu reduzir o número de integrantes para este ano e, com isso, mitigou as falhas de harmonia e evolução provocadas pelo gigantismo do passado.

Entre os pontos altos do desfile campeão está a força do samba-enredo composto por Zeca do Cavaco, Zé Carlinhos e Ronaldinho FQ.  A letra, construída a partir de uma costura de títulos, frases e citações de célebres sucessos da Pimentinha, escorou-se na força de um refrão que resgatava o canto de escravos presente na canção “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brandt. O coro de “Aê, aê, laralaê…” levou as arquibancadas ao delírio e certamente contribuiu para as três notas 10 na apuração desta tarde. Tudo isso com o auxílio luxuoso da bateria do Mestre Tadeu, que a cada ano reforça sua autoridade no conjunto da obra. Os ritmistas até se valem das licenças poéticas para fazer, como todos os rivais, as famosas paradinhas e levadas fora do padrão convencional, mas jamais perdem de vista a premissa de que estão ali a trabalho, a serviço de um grande show.

A homenagem da escola lembrou a trajetória de Elis por meio das músicas, desde o início nos festivais aos grandes compositores que ela gravou. Isso permitiu que, ao invés de um caráter cronológico, o enredo pudesse ser contado de uma forma mais livre, daí o fato de muitas alas fazerem referências à Jovem Guarda, aos  programas de auditório e, sobretudo, aos movimentos político-culturais que se opunham à ditadura nos anos de chumbo do regime militar no país.

O único momento de tensão do desfile foi a entrada do carro abre-alas. Com 90 metros de comprimento, a alegoria apresentou pequenos problemas para se manter alinhado por um defeito no eixo, mas os integrantes conseguiram conduzi-lo na pista sem prejudicar o andamento do desfile. Um desfile merecidamente campeão!

Fonte: Uol Carnaval 2015

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Sou Professor, Escritor e Poeta. Estudo Música e faço algum barulho com minha guitarra, a Clementina. Já publiquei quatro livros de poesias. Pretendo lançar mais, pois já tenho mais poesias prontas. Algumas delas estão publicadas aqui no Bloginforma. Criei recentemente (jul/2019) um perfil no Twitter: @EltonCa20982408